O Judeu e a Vaca

Todos os dias, da manhã até o cair da noite, Jacob Simon não fazia outra coisa senão maldizer a sorte ingrata. Blasfemava contra o destino que o forçava a viver naquela insuportável e torturante penúria. A casa em que morava era pequena, incômoda e sem conforto, não dispunha senão de dois quartos para os pequenos e de uma sala minúscula, com duas janelas, onde mal podia receber nos dias de festa meia-dúzia de amigos e vizinhos.

A paciente Sorolé não concordava com as queixas e revoltas do marido. A vida para eles não era, por certo, invejável. Lá isso não era! Podia, porém, ser pior, muito pior.

- Pior do que isso, mulher! - clamava Jacob, arrepelando-se, irritado. - Nunca! Não é possível! Repara na apertura e no desconforto em que vivemos. Não cabemos nesta casa e não vejo como nem quando será possível arranjar outra melhor.

Um dia, afinal, a cidade foi visitada por um sábio famoso que o povo apelidara Baal Schem.

Informada da presença do taumaturgo, Sorolé sugeriu cheia de confiança ao esposo:

- Por que não vais ouvir o velho Baal Schem? Dizem que ele já tem feito espantosos milagres. Possivelmente poderá auxiliar-nos.

Tal lembrança parecia traduzir uma providencia fácil, acertada e feliz. Nesse mesmo dia, Jacob Simon foi ter à presença do santo rabi e desfiou o rosário interminável de suas queixas e misérias. Que vivia num casebre triste e miserável e que o maior sonho de sua vida era possuir uma casa ampla e espaçosa.

– Meu filho – ponderou o sábio, cheio de paciência e bondade posso, realmente, com a valiosa proteção dos guias invisíveis, realizar prodigioso milagre em teu benefício. Serei capaz de transformar a tua casa, pobre e acanhada, numa vivenda ampla, clara e confortável. Para tanto torna-se indispensável que pronuncies, agora mesmo, um juramento.

– Que juramento é esse, senhor? - indagou aflito o judeu, arregalando os olhos numa sincera emoção de interesse.

Respondeu Baal Schem em tom levemente enfático:

– Vais jurar pelo nome sagrado de Moisés e pela memória de todos os profetas que seguirás fielmente todas as minhas determinações.

- Juro! - declarou Jacob com voz firme e inabalável sinceridade.

– Muito bem - repisou o sábio. - O teu juramento permitirá a realização do milagre. E agora uma pergunta: Tens uma vaca, não é verdade?

– Sim, com efeito. Tenho uma vaca.

- Leva então, hoje mesmo, a vaca para dentro de tua casa!

– A vaca para dentro de casa! – bradou o mísero Jacob como ferido em pleno peito. – Senhor! Na casa em que moro mal cabem os meus filhos. Onde colocarei a vaca?

- Lembra-te, amigo, de teu juramento! Põe a vaca dentro de casa.

Não houve remédio. Era preciso obedecer cegamente ao milagroso conselheiro.

A vida de Jacob, daquele dia em diante, tornou-se um verdadeiro suplício. Aquela vaca, sob o teto de seu lar, representava uma tortura constante. O monstruoso animal quebrava, destruía e sujava tudo. Para que os vizinhos não envolvessem o caso com os impiedosos comentários ditados pelo ridículo, a delicada Sorolé conservava as janelas e portas cuidadosamente fechadas durante o dia.

Decorridos três dias voltou Jacob, a alma vencida pelo desespero, à presença do Baal Schem.

Era preciso pôr termo, o mais depressa possível, àquela situação torturante!

- Tens uma cabra? - indagou o sacerdote a meia-voz.

- Sim. É verdade confessou Jacob, com voz mal-segura, surpreendido com aquela inesperada pergunta. Tenho uma cabra.

- Leva também a cabra para dentro de tua casa! - ordenou, sem hesitar, o prudente rabi.

A nova determinação do milagroso guia deixou o mísero Jacob sucumbido pelo desalento. A vaca, por si só, tornava a vida dentro da casa insuportável. A cabra e a vaca seriam uma calamidade! Que horror! Viver entre as quatro paredes de uma sala com uma vaca e uma cabra.

Antes de terminar a primeira semana Jacob, receando que o desespero o levasse à loucura, voltou a implorar o auxílio do santo e virtuoso conselheiro. Sentia-se esgotado. Na sua casa não havia mais sossego; as crianças sofriam. Ele preferia morrer a continuar a viver daquela maneira miserável e anti-humana.

Disse, então, o santo milagroso:

- Retira hoje a cabra. Amanhã, logo que o sol nascer, farás a mesma coisa com a vaca. Procederás, a seguir, a uma cuidadosa limpeza em tua casa, arrumando os móveis como se achavam. Ao cair da tarde irei visitar-te para ver realizado o milagre!

No dia seguinte quando o sábio passou pela modesta casa em que vivia Jacob Simon, encontrou o judeu risonho e satisfeito. Sentia-se perfeitamente feliz em companhia da meiga Sorolé e de seus quatro filhinhos.

- Que tal achas, agora, a tua casa? – indagou o venerando Baal Schem.

Respondeu Jacob intimamente satisfeito e toda a sua face reluzia de prazer:

– Eis a verdade, ó Rabi! Livre da vaca e livre também da cabra a nossa casa é uma delícia! Sinto-me bem dentro dela. Já podemos respirar e viver! Há até lugar de sobra para as crianças!

Estava feito o prodigioso milagre. Baal Schem transformara, numa vivenda ampla e confortável o mísero casebre do judeu!

Quantas vezes, meu amigo, não tenho ensejo de exclamar, ao julgar certas ocorrências de minha vida, comparando o presente com o passado:

- Estou de muita sorte! Retirei a vaca da sala de jantar!

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