Gabito Nunes

Quase bom partido

Não na minha frente, mas eu sei que as pessoas se perguntam. Como ele consegue? O cara é uma calamidade pública, usa blusões cujas cores estão fora de catálogo, calças de brim que parecem ter sobrado do Woodstock, acorda ranzinza, vangloria-se daquela barba idiota, não tem um lugar certo pra estar das 9 horas as 18, acha tudo um saco e vive alheio à sociedade de consumo, não se sabe se por filosofia ou porque está sempre duro. Qual futuro ele reserva pra coitada?

Certo, se você me alinhar atrás de uma parede de espelhos ao lado de um George Clooney e algum ex-Polegar e qualquer outro homem que vocês conheçam de longe, talvez eu seja o último a dar um passo a frente no reconhecimento de um bom partido. Eu sei disso e não dou a mínima. Os tempos mudaram, e eu sou o tipo de cara que soube se aproveitar disso, ainda que esteja me equilibrando no trapézio entre dividir a conta e pedir grana emprestado, coisa que até agora não precisei fazer.

Minha garota sabe se virar sozinha, tem emprego fixo, curso superior, tem depilações e penteados em dia, amigos bacanas, sonhos, perspectivas, futuros, tudo com uma pequena ajuda dos pais que ficaram lá longe, no interior - e eu aí, nessa roupa decaída de Arturo Bandini. Mas nenhuma revolução industrial ou poder econômico ocupa o vazio deixado pelo afeto paternal, todo dia. Ela queria um namorado, um abraço residencial logo ali, alguém de raça familiar, em quem possa confiar. Chutou uma lata, por azar ou sorte, me achou. Considerando atenuantes como a promiscuidade contemporânea da metrópole, quantas pessoas no mundo podem dizer que tem alguém?

Ela sonha com um carinha melhor no pedaço, com ações na Bovespa, talvez. Claro que sonha, é moderna mas não deixou de ser mulher, poxa vida. Nem ligo, tenho meus podres, quando a vizinha do 310 brigou com o namorado, torci uma tarde inteira pra ela deixar cair uma calcinha microscópica na minha varanda e juntos fugirmos para um conto do Nelson Rodrigues. Ela sabe que não sou de todo mau, não fumo (não mais), não tenho obsessão por alguma ex-namorada (não mais), não durmo de pijama (não mais), não moro com minha mãe (não mais). Embora eu não saiba exatamente quais são, tenho minhas vantagens.

Esse é o espírito. Ela se aproximou de mim procurando um amor e aqui estou: seu amor. Do jeito que sei ser, meio torto, às vezes sem muitas manifestações de romance e completude, cheio de silêncios, angústias e mau-humores. Fazendo meu papel, e não sendo apenas mais um percorrendo aquele velho ciclo conhecer-tentar-decepcionar-conhecer-tentar-decepcionar. Quando você acorda num domingo e a primeira pessoa com a qual você tem a chance de conversar não está bêbada num pub, às dez da noite, a monogamia não parece de todo um crime.

Como ele consegue? Assim eu consigo. Não sei aplicar na bolsa, não fico ambicionando coisas com a Revista Caras contra o peito, talvez nem tenha um tênis considerado bacana pela moçada. Mas ela sabe, eu também, que sei amá-la, cuidá-la, fazê-la rir, viajar leve. E não tenho certeza que sei fazer outra coisa. Posso não ser um bom partido, da turma dos bacanas, o grande amor da vida de alguém. Mas, cá pra nós, do jeito que as coisas andam, já sou bom o suficiente, apenas por tentar.

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