Se não existe entrega, a separação muitas vezes é a melhor alternativa.

Para a relação ser plena, as duas pessoas devem estar dispostas a compartilhar-se de modo a unir forças para evoluir juntas. Quando só uma se entrega, a união fica inviável e o casal precisa admitir até a separação. O processo pode ser doloroso, mas é uma forma de pôr fim ao sofrimento de viver um relacionamento desigual.


No livro A Separação dos Amantes, o psicanalista Igor Caruso (1914-1981) diz que "uma das mais dolorosas experiências humanas - talvez a mais dolorosa - é a separação definitiva daqueles aos quais se ama". Esquecer o ser amado é um duro desafio, sobretudo para quem teve de separar-se pois o outro não soube ou não quis se entregar.

Alguns creem que é o amor que dá consistência à união. Não concordo. Penso que a entrega sustenta a relação. Sem ela, não há casal, apenas duas pessoas que mantêm uma relação com o propósito de usufruir interesses em comum. Vínculos dessa qualidade escondem a covardia e a falta de criatividade dos que preferem viver sem se colocar à prova, sem se comprometer com o próprio crescimento. A separação, nesses casos, é dolorosa, porque tira o controle de quem manteve a união estagnada. Mas não é da dor de não poder mais controlar que quero tratar. Quero falar da dor de não poder mais amar. Quando existe amor e entrega, a pessoa deseja compartilhar-se com o outro para ser um só. Quer somar forças e crescer junto. Isso não significa que vá perder a individualidade. Ao contrário. À medida que se deixa transformar pelo outro, amplia a chance de se renovar.

Mas o desejo de se unir dessa forma só pode ser satisfeito se houver entrega de ambas as partes. Se o outro não se entrega, quem ama tem de sacrificar o seu amor. Segundo Igor Caruso, nessas circunstâncias uma sentença de morte recíproca recai sobre o casal: um morre na consciência do outro. A pessoa que ama tem de "matar" o ser amado dentro de si e acredita que ele terá facilidade em também eliminá-la de sua vida, uma vez que nunca se envolveu de fato. Por isso, convencionou-se chamar o período pós-separação de "luto".

Se levarmos em conta que quem se entrega se deixa transformar pelo outro, se torna um pouco o outro, podemos entender que ao matá-lo estará cometendo também uma espécie de suicídio. Nosso sistema psíquico e o impulso de vida rebelam-se contra essa situação. Passamos então a sentir e agir de modo contraditório: queremos o outro e não queremos, desejamos esquecê-lo e preservá-lo, amamos e odiamos. É a fase das perguntas que sugerem respostas dolorosas: " que ele(a) já me esqueceu? "Por que não consigo esquecêlo(a)?", "Quanto tempo vai durar essa dor? estiver envolvido(a) com outra(o)?" É também a fase das autossabotagens, de procurar motivos infames pra entrar em contato para ter notícias, fuçar em orkuts. Esse período doloroso, quando a pessoa luta para união, abala a auto-estima e fragiliza.

Para proteger-nos, nossas defesas são inconscientemente recrutadas, mas leva tempo para que tenham eficácia. Muitos voltam atrás na decisão de separar-se. Isso só prolonga o processo, tornando-o mais doloroso. Quando não há entrega, o melhor é admitir que a relação plena é inviável e preparar-se para o processo de luto, buscando a ajuda dos amigos e apoio profissional. A dor de uma separação é grande, mas tem fim, já a dor de conviver com quem não se entrega pode durar para sempre.

Tirado de: http://www.caras.com.br/edicoes/802/textos/se-nao-existe-entrega-a-separacao-muitas-vezes-e-a-melhor-alternativa/

* Rosa Avello é psicoterapeuta com especialização em sexualidade humana pelo Instituto Sedes Sapientiae, em psicodinâmica aplicada aos negócios pelo Grupo Dirigido (GD) e na aplicação do MBTI (instrumento de identificação dos perfis psicológicos) pelo Instituto Felipelli. Atua na capital paulista. E-mail: rosavello@uol.com.br

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